Academia com muitos estagiários: o que a lei permite, onde está o risco e como manter tudo juridicamente regular
O uso de estagiários em academias é uma prática comum no Brasil, especialmente em razão da forte conexão entre o setor fitness e cursos de Educação Física, Fisioterapia e áreas correlatas. No entanto, o que muitos empresários ainda não perceberam é que o excesso de estagiários, quando mal estruturado, se tornou um dos maiores focos de risco trabalhista para academias.
A pergunta que muitos donos de academia fazem é direta: “posso ter um quadro de estagiários maior que o normal?”
A resposta jurídica correta é: pode ter estagiários, mas não pode transformar o estágio em modelo de negócio nem em substituição de mão de obra regular.
Neste artigo, você vai entender:
- O que a legislação brasileira realmente permite
- Quando o número de estagiários se torna ilegal
- Onde as academias mais erram
- Quais são os riscos trabalhistas envolvidos
- Como estruturar o estágio de forma segura
Tudo isso com foco na realidade prática das academias no Brasil.
O estágio, juridicamente, não é emprego. Ele é definido como um ato educativo supervisionado, cujo objetivo principal é a formação do estudante, e não a produtividade da empresa.
Isso significa que:
- O estágio não existe para reduzir custos trabalhistas
- O estagiário não pode substituir empregado
- A atividade deve ter caráter pedagógico
Na prática, quando a academia utiliza estagiários como se fossem professores, instrutores ou funcionários regulares, ocorre desvio de finalidade, o que pode gerar reconhecimento de vínculo empregatício.
Existe limite de estagiários por empresa no Brasil?
Sim. A legislação brasileira estabelece limites objetivos para o número de estagiários em relação ao número de empregados, no caso de estágio não obrigatório.
De forma simplificada:
- Empresas com até 5 empregados: até 1 estagiário
- De 6 a 10 empregados: até 2 estagiários
- De 11 a 25 empregados: até 5 estagiários
- Com mais de 25 empregados: até 20% do quadro de empregados
Esses limites existem justamente para evitar que o estágio seja usado como substituto da contratação formal.
⚠️ Importante: estágio obrigatório vinculado diretamente ao currículo do curso não entra nessa conta, mas somente se for realmente obrigatório e educativo.
O grande erro das academias: quantidade + função
O maior problema jurídico não é apenas a quantidade de estagiários, mas a função que eles exercem dentro da academia.
Academias entram em zona de risco quando:
- Possuem mais estagiários do que professores registrados
- Dependem de estagiários para funcionar
- Colocam estagiários para dar aulas sozinhos
- Escalam estagiários como se fossem funcionários
- Tratam o estágio como “professor em treinamento” permanente
Nessas situações, mesmo que exista termo de compromisso assinado, a Justiça do Trabalho pode reconhecer fraude.
Estagiário pode dar aula em academia?
Essa é uma das dúvidas mais frequentes — e uma das maiores fontes de condenação.
👉 Estagiário NÃO pode dar aula sozinho.
Ele pode:
- Auxiliar o professor
- Acompanhar alunos
- Aprender a dinâmica da atividade
- Executar tarefas supervisionadas
Mas a responsabilidade técnica deve ser sempre do profissional habilitado, com registro regular e presença efetiva.
Quando o estagiário assume turmas, horários fixos e autonomia técnica, o estágio perde completamente sua validade jurídica.
Supervisão: o ponto mais ignorado (e mais cobrado)
A supervisão não pode ser apenas formal ou “no papel”.
Para que o estágio seja válido:
- Deve haver profissional habilitado
- A supervisão deve ser real, contínua e comprovável
- O supervisor precisa acompanhar o estagiário na prática
Academias que apenas “assinham relatórios” sem supervisão efetiva estão altamente vulneráveis em fiscalizações e ações trabalhistas.
Jornada fixa e escala: sinais claros de vínculo
Outro erro comum é impor ao estagiário:
- Jornada rígida
- Escala fixa
- Obrigação de cobrir faltas
- Substituição de professores
Esses elementos são típicos de relação de emprego, não de estágio.
O estágio até pode ter horário definido, mas não pode reproduzir a lógica do empregado, sob pena de descaracterização.
“Mas todo mundo faz assim”: por que isso não protege a academia
No Direito do Trabalho, a prática de mercado não legitima ilegalidades.
O juiz analisa:
- O que está no contrato
- Mas, principalmente, a realidade da prestação de serviços
Se a realidade mostrar subordinação, habitualidade, pessoalidade e onerosidade, o vínculo pode ser reconhecido, independentemente do nome dado ao contrato.
Quais são as consequências jurídicas para a academia?
Quando o estágio é considerado irregular, a academia pode ser condenada a:
- Reconhecimento de vínculo de emprego
- Registro retroativo em carteira
- Pagamento de FGTS + multa de 40%
- Férias + 1/3
- 13º salário
- Horas extras
- Multas administrativas
Além disso, há:
- Risco de fiscalização do Ministério do Trabalho
- Danos à reputação
- Efeito multiplicador (outros estagiários podem ingressar com ações)
A Geração Z e o aumento do risco jurídico
Hoje, a maioria dos estagiários pertence à Geração Z, um fator que aumenta significativamente o risco para academias que atuam fora da legalidade.
Essa geração:
- Tem mais acesso à informação
- Conversa entre si
- Compartilha experiências em redes sociais
- Questiona práticas abusivas
- Procura orientação jurídica com mais facilidade
Ou seja: o estagiário que hoje aceita tudo, amanhã pode processar.
Estágio não é solução para reduzir folha de pagamento
Um erro estratégico comum é enxergar o estágio como forma de:
- Diminuir custos
- Substituir professores
- Evitar encargos trabalhistas
Essa lógica é perigosa.
Estágio não pode ser base operacional da academia.
Quando isso ocorre, o risco jurídico deixa de ser eventual e passa a ser estrutural.
Como estruturar estágio de forma segura em academias
Para manter tudo juridicamente em ordem, a academia deve:
✔ Ter professores contratados suficientes
✔ Usar estagiários apenas como apoio educacional
✔ Garantir supervisão efetiva
✔ Respeitar os limites legais de quantidade
✔ Manter plano de atividades
✔ Evitar autonomia técnica do estagiário
✔ Documentar corretamente a relação
Essas medidas reduzem drasticamente o risco trabalhista.
Alternativas mais seguras ao excesso de estagiários
Se a academia precisa de mais pessoas para operar, alternativas juridicamente mais seguras incluem:
- Contratação formal de professores
- Ajuste de carga horária
- Planejamento melhor de turmas
- Revisão do modelo operacional
Estágio não deve ser usado para tapar buracos estruturais.
Fiscalização em academias: uma realidade cada vez mais comum
O setor fitness está cada vez mais no radar de fiscalizações, especialmente por:
- Uso excessivo de estagiários
- Ausência de profissionais habilitados
- Denúncias internas
Academias que se antecipam e se regularizam evitam autuações e processos.
Pode ter muitos estagiários? Cuidado com o limite invisível
A legislação brasileira não proíbe o uso de estagiários em academias, mas impõe limites claros. O problema começa quando o estágio deixa de ser educativo e passa a ser operacional.
Siga as redes sociais da Araujo Soares e Cruz Advogados Associados:
Facebook • Instagram • LinkedIn • YouTube • Imagem: Freepik
Av. Contorno, 6321 – 3º andar | Savassi – BH/MG
Agende uma consultoria estratégica para sua empresa
