O Fim da Escala 6×1: Avanço Social ou Risco Econômico?
À primeira vista, acabar com a escala 6×1, que é seis dias de trabalho para um de descanso, soa como uma vitória inequívoca do trabalhador. Mais tempo livre, menos exaustão, mais convívio familiar e melhores condições de saúde física e mental. A proposta possui forte apelo simbólico e emocional, especialmente em um país cuja Constituição consagra os valores sociais do trabalho e da dignidade da pessoa humana.
Contudo, quando o debate deixa o campo moral e ingressa no plano econômico e jurídico, surgem questionamentos relevantes sobre custos, produtividade, emprego formal e sustentabilidade empresarial. A discussão não pode ser simplificada como um embate entre “direitos trabalhistas” e “lucro empresarial”. Trata-se, na verdade, de compreender os impactos sistêmicos de uma mudança estrutural na jornada de trabalho prevista na Consolidação das Leis do Trabalho .
Grande parte das propostas em debate prevê redução da jornada semanal sem redução salarial. Em termos práticos, o salário nominal permanece o mesmo, mas o custo da hora trabalhada aumenta.
Tomemos um exemplo objetivo: se um empregado recebe R$ 2.200 por 44 horas semanais, o custo por hora é de aproximadamente R$ 50. Se a jornada é reduzida para 40 horas, mantendo-se o mesmo salário, o custo por hora sobe para cerca de R$ 55, um aumento de 10%.
Esse aumento não desaparece por força de lei. Ele precisa ser absorvido por alguém na cadeia econômica. E, sob a ótica empresarial, existem basicamente quatro alternativas:
- Redução da margem de lucro
- Reajuste de preços ao consumidor
- Demissões ou redução de quadro
- Investimento em automação
Em setores de alta rentabilidade, parte do impacto pode ser diluída. O problema é que parcela significativa da economia brasileira opera com margens estreitas, especialmente no varejo, supermercados, restaurantes, hotelaria, transporte e serviços presenciais contínuos.

O Fim da Escala 6×1: Avanço Social ou Risco Econômico?
Setores Mais Impactados pela Mudança da Escala 6×1
A jornada semanal máxima de 44 horas encontra respaldo no ordenamento jurídico atual . A alteração estrutural desse modelo afeta diretamente atividades que funcionam sete dias por semana.
Supermercados, por exemplo, mantêm operação contínua. Restaurantes operam com escalas rotativas. Hospitais, hotéis e empresas de segurança não podem interromper suas atividades.
Se cada trabalhador passar a trabalhar menos dias, será necessário:
- Contratar mais funcionários para cobrir as escalas; ou
- Pagar horas extras com adicional mínimo de 50% .
Ambas as alternativas elevam o custo operacional. E, em setores já pressionados por tributos, encargos e concorrência acirrada, a margem de absorção é limitada.
Impacto na Inflação e nos Juros
Um dos efeitos previsíveis é a inflação de serviços, componente sensível do índice oficial de preços. Quando os custos sobem sem aumento correspondente de produtividade, a tendência é a elevação dos preços.
Se a inflação se dissemina, o Banco Central tende a elevar a taxa de juros para conter a pressão inflacionária. Juros mais altos encarecem o crédito, reduzem o investimento e desaceleram o crescimento econômico. Assim, uma medida que busca melhorar a qualidade de vida pode, paradoxalmente, produzir um ambiente macroeconômico menos favorável ao emprego.
Informalidade: O Efeito Colateral Silencioso
O Brasil já convive com elevada taxa de informalidade. Quando o custo da contratação formal aumenta, pequenos empregadores tendem a migrar para formas informais de contratação.
A relação de emprego, definida pelos elementos de subordinação, habitualidade, onerosidade e pessoalidade , pode ser mascarada por contratos precários, pejotização ou arranjos informais.
Além disso, o aumento de desligamentos pode ampliar a pressão sobre o sistema de seguro-desemprego, cuja finalidade é prover assistência financeira temporária ao trabalhador dispensado sem justa causa . A legislação, ao tentar proteger, pode acabar excluindo trabalhadores do regime formal, com perda de acesso a direitos como FGTS , férias remuneradas e demais garantias constitucionais.
Micro e Pequenas Empresas: O Elo Mais Frágil
Micro e pequenas empresas são particularmente sensíveis a alterações permanentes na folha de pagamento. Muitas operam no limite financeiro. Qualquer aumento estrutural de custo pode representar:
- Encerramento das atividades;
- Redução do quadro funcional;
- Perda de competitividade frente a grandes redes.
Grandes grupos econômicos possuem maior capacidade de absorção de choques regulatórios, seja por acesso a crédito, seja por ganhos de escala. Pequenos negócios, não. A consequência indireta pode ser a concentração de mercado e redução da concorrência, o que também pressiona preços no longo prazo.
Automação e Substituição de Mão de Obra
O aumento do custo do trabalho humano torna mais atraente o investimento em automação. Totens de autoatendimento, cardápios digitais, caixas automatizados e sistemas de pagamento eletrônico tornam-se economicamente mais viáveis. No médio prazo, isso reduz oportunidades para trabalhadores menos qualificados, justamente aqueles que encontram no comércio e nos serviços sua principal porta de entrada no mercado formal.
O impacto pode ser ainda mais significativo para jovens em busca do primeiro emprego, uma vez que empregadores tendem a exigir maior qualificação para justificar o custo elevado da contratação.
Produtividade: O Elemento Central da Equação
O ponto crucial da discussão não é apenas a jornada, mas a produtividade. Em economias onde a redução da jornada ocorreu com sucesso, houve simultâneo aumento de eficiência, inovação tecnológica e qualificação da força de trabalho.
Sem crescimento de produtividade, a simples redução do tempo de trabalho tende a gerar aumento de custo unitário. E custo elevado, em ambiente competitivo, costuma resultar em repasse ao consumidor ou redução do emprego.
Entre o Ideal e o Possível
A discussão sobre o fim da escala 6×1 é legítima e necessária. O ordenamento jurídico brasileiro valoriza tanto a proteção ao trabalhador quanto a livre iniciativa . O desafio está em equilibrar esses pilares.
A redução da jornada pode representar avanço social relevante, desde que acompanhada de:
- Estratégias de aumento de produtividade;
- Redução da complexidade tributária;
- Políticas de incentivo à formalização;
- Transição gradual e planejada.
Sem esse cuidado, a medida pode gerar efeitos adversos: inflação de serviços, aumento da informalidade, desemprego estrutural e concentração de mercado. A questão, portanto, não é apenas se a escala 6×1 deve acabar. A pergunta central é: em quais condições econômicas e estruturais o país está preparado para sustentar essa mudança sem comprometer o próprio mercado de trabalho que se pretende proteger?
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